Mario Sergio Cortella
Cidadão
desconhece a tributação indireta que lhe permite exigir bom atendimento em
escolas e hospitais públicos
É preciso pensar o papel do Estado como gerador de qualidade social, principalmente a partir da seguinte questão: quem é o proprietário do que é público? O adequado seria afirmar: o povo, mormente o "povão", que, por ser maioria, é o grande contribuinte. Ora, o "povão" não se coloca nessa condição porque acha que não paga impostos; aliás, ele se humilha no equipamento público porque não sabe que o financia. É por isso que o povo chama a escola do "governo", o hospital do "governo" e, portanto, de graça ou graciosamente.
O
"povão" acha que não paga imposto, porque pensa que imposto é só
imposto direto, que é o imposto sobre renda e propriedade, o que ele não tem.
Os principais impostos diretos - como o Imposto de Renda (IR), o Imposto
Predial Territorial Urbano (IPTU), o Imposto Territorial Rural (ITR) - o
"povão" não paga mesmo. Aliás, desses não são muitos os justamente
pagantes, dado que o IR grava especial e quase exclusivamente os assalariados,
o IPTU não é progressivo e há grandes isenções nas metrópoles, e o ITR ainda
não chegou próximo à justiça tributária em um país de latifúndios.
A questão é
muito mais complexa. O "povão" acha que não paga imposto, mas paga
impostos indiretos que são os impostos sobre o consumo, como o Imposto sobre
Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços (ICMS). Como a parcela extensamente majoritária dos orçamentos
públicos vem dos impostos indiretos, quem financia os orçamentos? Quem consome.
E quem consome? Todos.
Onde estão os
impostos indiretos? No leite, no pão, no sapato, na água, na luz etc. Vamos a
um exemplo concreto: 1 litro de leite na padaria ao lado custa R$ 1,10 e, neste
preço, R$ 0,25 são impostos. Se eu ganhar R$ 1 mil de salário por mês, eu pago
R$ 0,25 de imposto; se eu ganhar R$ 10 mil de salário por mês, eu pago R$ 0,25
de imposto. Se eu ganhar R$ 100 mil de salário por mês, eu pago R$ 0,25 de
imposto; se eu ganhar R$ 180 por mês, eu pago R$ 0,25 de imposto. Como isso
está no leite, no pão etc., etc., a conclusão é óbvia: como a maioria do país é
pobre, é esta que sustenta os orçamentos que a ela não retornam em forma de
serviços públicos adequados, configurando uma espécie de estelionato.
E ele - o
"povão" - acha que não paga imposto. Tanto que vai à escola pública e
é muitas vezes desprezado na fila; vai ao hospital público e fica deitado na
maca no corredor. O "povão" está pagando. A criança reclama da
merenda na escola e um colega nosso fala assim: "Mas esse povinho come de
graça e ainda está reclamando" ou, no hospital, "esse povinho recebe
atendimento de saúde gratuito e ainda está reclamando, quer leito bom, quer
remédio de graça". De graça? Aquilo está pago! E muito bem pago!
Por isso, a
violência mais forte é a não-compreensão de todas essas coisas, o
não-esclarecimento de que, se o cidadão paga imposto, ele tem esse direito e,
acima de tudo, é seu direito ser proprietário do que é público.
*Professor de
pós-graduação em Educação (Currículo) da PUC-SP.
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